O que são cistos aracnóideos?
O cérebro e a medula espinhal são envolvidos por três membranas, as meninges: a dura-máter, mais externa e resistente; a aracnoide, intermediária e delicada; e a pia-máter, aderida à superfície do tecido nervoso. Entre a aracnoide e a pia-máter fica o espaço subaracnóideo, por onde circula o líquido cefalorraquidiano (líquor).
O cisto aracnóideo é uma bolsa formada por um desdobramento ou separação da própria aracnoide, preenchida por líquido de composição semelhante ao líquor.[1][3] Por isso, ele fica fora do tecido cerebral, ao lado dele.
Cisto aracnóideo não é tumor. Não há multiplicação de células tumorais. A ressonância magnética geralmente permite distingui-lo de outras lesões com componente cístico, que têm características diferentes.[1][3]
Com o uso mais frequente de ressonância e tomografia, muitos cistos são descobertos em exames feitos por outros motivos, como após uma queda, uma crise de dor de cabeça ou na investigação de outras queixas. Em um grande estudo com crianças submetidas à ressonância, cistos aracnóideos foram encontrados em cerca de 2,6% dos exames, e a grande maioria não causava sintomas.[2]
Por que os cistos aracnóideos aparecem?
- Cistos primários ou congênitos
- São os mais comuns. Estão relacionados ao desenvolvimento das membranas durante a formação do sistema nervoso. Ainda que presentes desde cedo, podem ser descobertos em qualquer idade.
- Cistos secundários
- Menos frequentes. Podem surgir em contextos específicos, como após processos inflamatórios ou infecciosos das meninges, traumatismos, hemorragias ou cirurgias, quando há formação de aderências que aprisionam o líquor.
Na maioria das vezes, não existe algo que os pais tenham feito ou deixado de fazer. A origem de um cisto em uma criança específica só pode ser discutida após avaliação clínica e dos exames.[1][3]
Onde podem estar localizados?
- Fossa média: a localização mais frequente, junto ao lobo temporal. Muitos são assintomáticos; os maiores podem se associar a abaulamento do crânio, dor de cabeça ou, raramente, a sangramentos após traumatismos.[2][4]
- Região suprasselar: acima da sela turca, perto da hipófise, dos nervos ópticos e do terceiro ventrículo. Pode obstruir a circulação do líquor e causar hidrocefalia, alterações visuais ou hormonais.[3]
- Fossa posterior: próxima ao cerebelo e ao tronco encefálico. Pode interferir na circulação do líquor ou comprimir estruturas vizinhas, e precisa ser diferenciada de outras alterações do desenvolvimento dessa região.[3]
- Convexidade cerebral: sobre a superfície dos hemisférios. Quando grandes, podem comprimir o cérebro adjacente ou deformar o crânio.
- Outras localizações: fissura inter-hemisférica, região quadrigeminal e regiões próximas aos ventrículos, entre outras.
A localização influencia os sintomas possíveis, a probabilidade de interferir na circulação do líquor e as opções de tratamento. Existem também cistos aracnóideos espinhais, ao redor da medula; sua apresentação (por exemplo, dor nas costas, fraqueza ou alterações de marcha) e sua avaliação são diferentes das dos cistos intracranianos e não são o foco deste texto.[1]
Quais são os sintomas?
A maioria dos cistos aracnóideos não causa sintomas e é descoberta por acaso.[1][2] Quando há sintomas, eles variam conforme a localização, o tamanho, a evolução e a eventual interferência na circulação do líquor. Podem incluir:
- Dor de cabeça, sobretudo quando persistente, progressiva ou acompanhada de outros sinais.
- Náuseas e vômitos.
- Alterações visuais, especialmente em cistos próximos às vias ópticas.
- Convulsões, em determinados contextos.
- Atraso ou alterações do desenvolvimento, alterações hormonais ou manifestações neurológicas específicas, conforme a região envolvida.
- Em bebês, aumento acelerado do perímetro cefálico ou abaulamento do crânio; em qualquer idade, sinais de hidrocefalia quando a circulação do líquor é bloqueada.
Nenhum desses sintomas, isoladamente, prova que o cisto é a causa. Dor de cabeça e convulsões têm muitas outras explicações na infância. A relação entre o achado de imagem e os sintomas precisa ser analisada clinicamente, e esse é um dos pontos centrais da avaliação.[3][4]
Como é feito o diagnóstico?
- História clínica e exame neurológico: ajudam a entender se há sintomas e se eles são compatíveis com a localização do cisto.
- Ressonância magnética: é o principal exame. Mostra o tamanho, a localização, a relação com estruturas vizinhas e ajuda a diferenciar o cisto de outras lesões. Em bebês e crianças pequenas, pode exigir sedação.
- Tomografia computadorizada: pode ser usada em situações selecionadas, como urgências, avaliação óssea ou quando a ressonância não está disponível.
- Comparação com exames anteriores: quando disponíveis, permite avaliar se o cisto está estável ou aumentando.
Outros exames, como avaliação oftalmológica, podem ser solicitados conforme o caso. A escolha depende da situação clínica: nem toda criança precisa de exames repetidos em intervalos fixos.[2][3]
Todo cisto aracnóideo precisa de cirurgia?
Não. A presença de um cisto aracnóideo, por si só, não significa que seja necessário operar. Muitos cistos sem sintomas podem ser apenas acompanhados.[2][3] A decisão considera em conjunto:
- presença e intensidade dos sintomas;
- relação plausível entre os sintomas e o cisto;
- localização e efeito sobre estruturas vizinhas;
- crescimento documentado em exames sucessivos;
- presença de hidrocefalia ou de outras complicações, como sangramento;
- idade, condições clínicas e evolução da criança.
Não existe um tamanho a partir do qual a cirurgia seja automaticamente indicada. Um cisto grande e estável pode ser acompanhado, enquanto um cisto menor que bloqueia a circulação do líquor pode precisar de tratamento. Para cistos sem sintomas claros, as evidências são limitadas e as decisões envolvem ponderar benefícios e riscos do procedimento.[3][4]
Como é feito o acompanhamento?
O acompanhamento é individualizado e pode incluir consultas e exames de imagem quando indicados. Em estudos de seguimento pediátrico, a maioria dos cistos permaneceu estável; o crescimento foi mais observado em crianças pequenas, e alguns diminuíram ou desapareceram.[2]
- Observar e relatar mudanças: novos sintomas, piora de sintomas existentes ou alterações no desenvolvimento.
- Comparar exames: o mesmo tipo de exame, em momentos diferentes, mostra melhor a evolução.
- Considerar a estabilidade: cistos estáveis ao longo do tempo frequentemente dispensam exames frequentes.
- Reavaliar a conduta sempre que surgirem sintomas novos ou mudanças relevantes na imagem.
Não há um calendário universal de ressonâncias. A frequência é definida pela equipe conforme a idade, a localização, o tamanho e a evolução de cada criança.
Quais são as opções de tratamento?
Quando o tratamento é indicado, o objetivo é aliviar a compressão ou restabelecer a circulação do líquor — não necessariamente fazer o cisto desaparecer na imagem. Nenhuma técnica é a melhor para todos os casos.[3][4]
Observação clínica
Apropriada para muitos cistos sem sintomas ou com sintomas sem relação clara com o cisto, especialmente quando estáveis. Observar é uma conduta ativa, com reavaliação se houver mudanças.
Fenestração endoscópica
Por uma pequena abertura no crânio, um endoscópio permite abrir a parede do cisto e criar comunicação com cisternas ou ventrículos por onde o líquor circula. É menos invasiva e evita implantes, mas depende de uma anatomia favorável; em cistos suprasselares é frequentemente considerada.[3][4]
Fenestração por cirurgia aberta
Por meio de uma craniotomia, o cirurgião abre e comunica o cisto com os espaços do líquor sob visão direta, com microscópio. Pode ser preferida em situações selecionadas, conforme a localização, a anatomia e as características do cisto.[3][4]
Derivação cistoperitoneal
Um cateter com válvula conduz o líquido do cisto para outra região do corpo, geralmente a cavidade abdominal. Pode ser usada em casos específicos, como após falha de outras técnicas. Como envolve um implante, pode exigir revisões ao longo da vida e, em alguns casos, gerar dependência do sistema.[3][4]
Em uma revisão sistemática sobre cistos da fossa média, diferentes técnicas apresentaram perfis distintos de melhora, complicações e reoperação; os estudos são, em grande parte, retrospectivos, e não há consenso sobre uma técnica superior.[4] A escolha considera anatomia, sintomas, experiência da equipe e a possibilidade de recorrência ou de novas intervenções.
Quais são os riscos e as possíveis complicações?
Relacionados ao próprio cisto
Muitos cistos permanecem estáveis durante toda a vida. Outros podem comprimir estruturas vizinhas ou causar hidrocefalia. Raramente, especialmente em cistos da fossa média, pode ocorrer sangramento dentro do cisto ou ao redor do cérebro (hematoma subdural), às vezes após traumatismos de cabeça. Esse evento é incomum.[3][5]
Relacionados ao tratamento
Toda cirurgia tem riscos, que variam conforme a técnica e a localização: infecção, sangramento, acúmulo de líquido, convulsões, alterações neurológicas, necessidade de nova cirurgia e, nas derivações, mau funcionamento do sistema. A equipe discute esses riscos com a família antes de qualquer decisão.[3][4]
Quando procurar atendimento médico?
Procure avaliação médica se surgirem sintomas persistentes ou novos que possam estar relacionados ao cisto, como dores de cabeça frequentes ou progressivas, alterações visuais ou mudanças no desenvolvimento.
Procure atendimento de urgência se houver:
- dor de cabeça súbita e intensa;
- vômitos repetidos associados à piora clínica;
- sonolência excessiva ou alteração do nível de consciência;
- convulsão nova;
- fraqueza, dificuldade para falar, alteração da visão ou outro déficit neurológico agudo.
Esses sinais não confirmam uma complicação do cisto, mas exigem avaliação adequada e imediata.
Perguntas frequentes
Cisto aracnóideo é um tumor?
Não. É uma coleção de líquido semelhante ao líquor envolvida por membrana aracnoide, sem crescimento de células tumorais. O exame de imagem, geralmente a ressonância, ajuda a diferenciá-lo de outras lesões císticas.
O cisto aracnóideo é congênito?
A maioria dos cistos primários está relacionada ao desenvolvimento das membranas e é considerada congênita, mesmo quando descoberta anos depois. Outros podem ser secundários a inflamação, trauma ou cirurgia.
O cisto pode desaparecer sozinho?
Pode ocorrer, mas não é o comportamento habitual. Nos estudos de acompanhamento, a maioria permanece estável; diminuição ou desaparecimento é observado em uma minoria, mais frequentemente em crianças pequenas.
Todo cisto aracnóideo cresce?
Não. A maioria não muda de tamanho ao longo do acompanhamento. O crescimento é mais observado em crianças pequenas, por isso a idade no momento do diagnóstico é um dos fatores considerados.
Um cisto aracnóideo pode causar dor de cabeça?
Pode, especialmente quando há compressão ou alteração da circulação do líquor. Mas dor de cabeça é muito comum na infância e, em muitos casos, o cisto é um achado sem relação com ela. Essa relação precisa ser avaliada clinicamente.
Todo cisto precisa de cirurgia?
Não. Muitos cistos assintomáticos são apenas acompanhados. A cirurgia é considerada quando há sintomas plausivelmente relacionados, hidrocefalia, compressão relevante ou crescimento documentado, entre outros fatores.
Como saber se o cisto está aumentando?
Pela comparação entre exames de imagem e pela evolução clínica. Quando disponíveis, exames anteriores ajudam muito. A necessidade e o intervalo de novos exames são definidos individualmente.
A criança pode praticar esportes?
Não há consenso nem regra universal. Em estudos de acompanhamento de crianças com cistos aracnóideos que praticavam esportes, lesões neurológicas relacionadas foram raras. A orientação deve ser individualizada, considerando o cisto, a modalidade e a avaliação médica.
O cisto pode voltar depois da cirurgia?
Sim, pode haver persistência ou recorrência dos sintomas ou do cisto, e algumas crianças precisam de nova intervenção. A redução do cisto na imagem nem sempre é completa, mesmo quando os sintomas melhoram.
O acompanhamento precisa ser feito para sempre?
Depende. Cistos estáveis por um período adequado, sem sintomas, podem dispensar exames repetidos. Crianças operadas ou com derivação geralmente precisam de seguimento mais prolongado. A equipe define o plano para cada caso.
As respostas sintetizam as referências abaixo; as orientações devem ser adaptadas à avaliação de cada criança.
Referências
Há boa evidência de que a maioria dos cistos pediátricos é estável e assintomática. Já a escolha entre técnicas cirúrgicas e a orientação sobre esportes se baseiam principalmente em estudos observacionais e retrospectivos, sem consenso definitivo.
- National Institute of Neurological Disorders and Stroke (NINDS). Arachnoid Cysts. Informações gerais para pacientes.
- Al-Holou WN, Yew AY, Boomsaad ZE, Garton HJL, Muraszko KM, Maher CO. Prevalence and natural history of arachnoid cysts in children. Journal of Neurosurgery: Pediatrics. 2010;5(6):578–585. doi:10.3171/2010.2.PEDS09464.
- Mustansir F, Bashir S, Darbar A. Management of Arachnoid Cysts: A Comprehensive Review. Cureus. 2018;10(4):e2458. doi:10.7759/cureus.2458.
- Chen Y, Fang HJ, Li ZF, Yu SY, Li CZ, Wu ZB, Zhang YZ. Treatment of Middle Cranial Fossa Arachnoid Cysts: A Systematic Review and Meta-Analysis. World Neurosurgery. 2016;92:480–490. doi:10.1016/j.wneu.2016.06.046. Baseada principalmente em estudos retrospectivos.
- Strahle J, Selzer BJ, et al. Sports participation with arachnoid cysts. Journal of Neurosurgery: Pediatrics. 2016;17(4):410. doi:10.3171/2015.7.PEDS15189. Estudo prospectivo em uma única instituição.
- Lee JH, Holste KG, Selzer BJ, Garton HJL, Muraszko KM, Maher CO. Sports Participation and Sports-Related Neurologic Injuries in Pediatric Patients With Arachnoid Cysts. Neurosurgery. 2023;93(5):979–985. doi:10.1227/neu.0000000000002537.
Uma avaliação individual faz a diferença
Se há dúvidas sobre o diagnóstico, os sintomas ou o acompanhamento, converse com a equipe que acompanha a criança. Sinais de urgência devem ser avaliados em um serviço de emergência.
