Emmanuel Sá, neurocirurgião pediátrico Agendar

Saúde e desenvolvimento na infância

Hipertensão intracraniana idiopática na infância: sintomas, diagnóstico e tratamento

A hipertensão intracraniana idiopática, também chamada de pseudotumor cerebral, é o aumento da pressão do líquor dentro do crânio sem tumor, sem hidrocefalia e sem outra causa identificada nos exames.

Em crianças e adolescentes, o principal risco é para a visão. Com diagnóstico e acompanhamento adequados, a maioria evolui bem, mas o tratamento precisa ser levado a sério mesmo quando a dor de cabeça melhora.

Informação educativa para pais e familiares. Este artigo não substitui uma consulta nem define a conduta para uma criança específica.

O que é hipertensão intracraniana idiopática?

O líquor envolve o cérebro e a medula e circula de forma contínua. Quando a pressão desse líquido aumenta, ela é transmitida aos nervos ópticos, que ligam os olhos ao cérebro. No fundo de olho, isso aparece como inchaço do disco óptico, chamado papiledema.

“Idiopática” significa que não há uma causa estrutural evidente. Ainda assim, a condição pode estar associada a fatores como obesidade em adolescentes, alguns medicamentos e alterações hormonais. Quando há um fator identificável, alguns autores usam o termo hipertensão intracraniana secundária.

Quais fatores podem estar associados?

  • Ganho de peso e obesidade, especialmente em adolescentes.
  • Uso de alguns medicamentos, como certos antibióticos da classe das tetraciclinas, excesso de vitamina A ou retinoides, hormônio de crescimento e a retirada de corticoides.
  • Algumas condições endócrinas e renais.
  • Estreitamento ou obstrução dos seios venosos do cérebro, que precisa ser investigado porque muda o tratamento.

Em crianças antes da puberdade, a condição ocorre em meninos e meninas e nem sempre se associa ao peso. Nenhum desses fatores, isoladamente, confirma o diagnóstico.

Quais são os sintomas?

  • Dor de cabeça, muitas vezes diária, que pode piorar ao deitar ou ao fazer esforço.
  • Escurecimentos rápidos da visão, de segundos, ao levantar ou mudar de posição.
  • Visão dupla, por envolvimento do nervo que move os olhos para os lados.
  • Zumbido pulsátil, um som no ouvido no ritmo do coração.
  • Náuseas e vômitos.

Algumas crianças não têm queixas, e o papiledema é descoberto em um exame de rotina com o oftalmologista. A perda de visão pode avançar sem dor, por isso o acompanhamento oftalmológico é parte central do cuidado.

Como é feito o diagnóstico?

  • Exame oftalmológico: fundo de olho, acuidade visual e campo visual. Exames como a tomografia de coerência óptica ajudam a medir o inchaço do nervo óptico e acompanhar a evolução.
  • Ressonância magnética do encéfalo com estudo das veias: afasta tumor, hidrocefalia e trombose dos seios venosos. Pode mostrar sinais indiretos de pressão elevada.
  • Punção lombar: mede a pressão de abertura do líquor e analisa sua composição, que deve ser normal. A medida precisa ser feita com a criança deitada de lado e relaxada, e os valores de referência consideram a idade e a sedação.

O diagnóstico depende do conjunto. Um único achado, como uma pressão um pouco elevada em uma punção feita com a criança agitada, não basta.

Como é o tratamento?

O objetivo principal é proteger a visão e aliviar os sintomas.

  • Tratar fatores associados: suspender medicamentos relacionados, quando possível, e apoiar a perda de peso em adolescentes com obesidade, com acompanhamento profissional.
  • Medicamentos: a acetazolamida é o mais usado para reduzir a produção de líquor. Outros podem ser associados. A dose e a duração são definidas pela equipe, com controle de efeitos colaterais.
  • Punção lombar: além de diagnóstica, pode aliviar sintomas temporariamente.
  • Cirurgia: reservada para perda visual progressiva apesar do tratamento clínico, ou quando ele não é tolerado. As opções incluem derivação do líquor, fenestração da bainha do nervo óptico e, em casos selecionados de estreitamento venoso, procedimentos endovasculares.

Como é o acompanhamento?

O acompanhamento é feito em conjunto com a oftalmologia, com exames visuais repetidos. A frequência é maior no início e diminui conforme a melhora. A dor de cabeça pode persistir mesmo com a pressão controlada e merece tratamento próprio.

A condição pode voltar, especialmente com novo ganho de peso. Mudanças na visão devem ser comunicadas logo à equipe.

Quando procurar atendimento?

Procure avaliação se houver dor de cabeça persistente com escurecimentos visuais, visão dupla ou zumbido pulsátil, ou se o oftalmologista encontrou inchaço do nervo óptico.

Procure atendimento de urgência se houver:

  • perda ou piora rápida da visão;
  • dor de cabeça intensa com vômitos repetidos;
  • sonolência, confusão ou outra alteração neurológica nova.

Perguntas frequentes

Pseudotumor cerebral significa que existe um tumor?

Não. O nome antigo vem do fato de os sintomas lembrarem os de um tumor, mas nos exames não há tumor.

A visão pode ser perdida?

Pode, se o inchaço do nervo óptico persistir sem tratamento. Por isso o acompanhamento com o oftalmologista é essencial, mesmo quando a dor de cabeça melhora.

Toda criança precisa de cirurgia?

Não. A maioria melhora com tratamento clínico. A cirurgia é considerada quando a visão piora apesar dele.

A doença pode voltar?

Sim, em parte dos casos. Ganho de peso e alguns medicamentos aumentam esse risco.

A punção lombar é perigosa?

É um procedimento comum, feito depois da ressonância. Pode causar dor de cabeça e desconforto nas costas por alguns dias. A equipe explica riscos e cuidados antes do exame.

Uma avaliação individual faz a diferença

Se há dúvidas sobre o diagnóstico, os sintomas ou o acompanhamento, converse com a equipe que acompanha a criança. Sinais de urgência devem ser avaliados em um serviço de emergência.

Agendar consulta