Emmanuel Sá, neurocirurgião pediátrico Agendar

Saúde e desenvolvimento na infância

Doença de moyamoya na infância: sintomas, diagnóstico e tratamento

A doença de moyamoya é uma condição rara em que as grandes artérias da base do cérebro se estreitam aos poucos. Para compensar, o cérebro forma uma rede de pequenos vasos finos, que nos exames lembra uma nuvem de fumaça. É daí que vem o nome, que significa algo como “nebuloso” em japonês.

Em crianças, o fluxo de sangue insuficiente pode causar episódios de fraqueza, alterações da fala ou AVC. O diagnóstico precoce e, quando indicada, a cirurgia de revascularização ajudam a proteger o cérebro.

Informação educativa para pais e familiares. Este artigo não substitui uma consulta nem define a conduta para uma criança específica.

O que é moyamoya?

As artérias carótidas internas levam grande parte do sangue ao cérebro. Na moyamoya, a parte final dessas artérias e seus ramos principais vão se estreitando de forma progressiva. Os pequenos vasos colaterais que se formam tentam compensar, mas são frágeis e muitas vezes insuficientes.

Quando não há outra condição associada, fala-se em doença de moyamoya. Quando o mesmo padrão aparece junto a outras condições, como síndrome de Down, neurofibromatose tipo 1, doença falciforme ou após radioterapia na cabeça, usa-se o termo síndrome de moyamoya. A doença é mais frequente em pessoas de ascendência asiática, mas ocorre em todas as populações.

Quais são os sintomas?

Em crianças, a forma mais comum é a isquemia, isto é, falta de sangue em áreas do cérebro:

  • Episódios de fraqueza ou formigamento em um lado do corpo, que podem melhorar em minutos ou horas (ataques isquêmicos transitórios).
  • Alteração da fala, da visão ou do equilíbrio.
  • AVC com sintomas que não desaparecem.
  • Sintomas desencadeados por choro intenso, febre, desidratação, esforço ou ao soprar, como em instrumentos de sopro ou ao esfriar comida, porque a respiração rápida reduz o fluxo de sangue no cérebro.
  • Dor de cabeça recorrente, convulsões, movimentos involuntários ou dificuldades de aprendizado.

Em adultos, o sangramento cerebral é mais comum do que em crianças. Esses sintomas têm outras causas possíveis e precisam de avaliação.

Como é feito o diagnóstico?

  • Ressonância magnética e angiorressonância: mostram áreas de AVC, o estreitamento das artérias e sinais indiretos de fluxo lento.
  • Angiografia cerebral por cateter: é o exame mais detalhado. Confirma o diagnóstico, define o estágio e mostra quais vasos poderão ser usados na cirurgia.
  • Estudos de perfusão: avaliam quanto sangue chega a cada região do cérebro e quanto ele consegue aumentar quando necessário. Ajudam a decidir se há indicação de cirurgia e qual lado tratar primeiro.

Avaliação neurológica, do desenvolvimento e investigação de condições associadas fazem parte do diagnóstico.

Como é o tratamento?

Não há remédio que reverta o estreitamento das artérias. O tratamento busca aumentar o fluxo de sangue para o cérebro e reduzir o risco de novos AVCs.

Cuidados clínicos

Ácido acetilsalicílico em dose baixa é frequentemente usado para reduzir o risco de coágulos. Manter boa hidratação, tratar febre prontamente e evitar situações de respiração rápida e prolongada são orientações importantes. Durante anestesias, cuidados específicos protegem o fluxo cerebral.

Cirurgia de revascularização

Em crianças com sintomas ou com redução importante da perfusão, a cirurgia costuma ser indicada. Existem duas formas principais:

  • Revascularização indireta: uma artéria do couro cabeludo, músculo ou membranas é colocada sobre a superfície do cérebro. Com as semanas e meses, novos vasos crescem para dentro do cérebro. Técnicas como a EDAS e a pial sinangiosis são muito usadas em crianças.
  • Revascularização direta: uma artéria do couro cabeludo é ligada diretamente a uma artéria do cérebro (bypass), aumentando o fluxo de forma imediata. Em crianças pequenas os vasos são muito finos, e a técnica é escolhida conforme o caso.

Muitas vezes os dois lados do cérebro são tratados, em cirurgias separadas. Os riscos incluem AVC no período próximo à cirurgia, sangramento e infecção, e são discutidos com a família.

Como é o acompanhamento?

Após a cirurgia, exames de imagem verificam a formação dos novos vasos e a melhora da perfusão. A doença pode progredir, inclusive no lado ainda não operado, por isso o acompanhamento é prolongado. Avaliação do desenvolvimento e apoio escolar podem ser necessários.

Quando procurar atendimento?

Procure avaliação se a criança tiver episódios repetidos de fraqueza, formigamento ou alteração da fala, mesmo que passem sozinhos.

Procure atendimento de urgência se houver:

  • fraqueza ou dormência súbita em um lado do corpo;
  • dificuldade súbita para falar ou entender;
  • alteração súbita da visão ou do equilíbrio;
  • convulsão ou dor de cabeça súbita e intensa.

Perguntas frequentes

Moyamoya é hereditária?

Em parte dos casos há fatores genéticos, e a doença é mais comum em algumas famílias e populações. Na maioria das vezes não há outro caso na família.

Toda criança com moyamoya precisa de cirurgia?

Não necessariamente, mas em crianças com sintomas ou com fluxo cerebral reduzido a cirurgia costuma ser recomendada, porque a doença tende a progredir.

A cirurgia funciona na hora?

Na revascularização indireta, os novos vasos se formam ao longo de semanas a meses. Na direta, o aumento de fluxo é imediato. As duas podem ser combinadas.

O que evitar no dia a dia?

Desidratação, febre sem tratamento e respiração rápida e prolongada podem desencadear sintomas. A equipe orienta cuidados específicos para cada criança.

Uma avaliação individual faz a diferença

Se há dúvidas sobre o diagnóstico, os sintomas ou o acompanhamento, converse com a equipe que acompanha a criança. Sinais de urgência devem ser avaliados em um serviço de emergência.

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